Arte animal e natureza morta

por Rocha Maia

Ainda criança, ficava um tempão olhando aquele quadro antigo, pendurado na sala de jantar, na casa do avô. Chamava sua atenção aqueles bichos mortos, frutas e até legumes, tudo pintado numa tela. Uma vez, perguntou sobre o motivo daquelas coisas estarem ali representadas.

Na sua forma infantil de ver o mundo, se admirava com tudo; achava estranho, por exemplo, terem dito que o quadro representava a abundância de alimentos, que a família sempre teria à mesa. Como assim? Não se come um quadro, nem que seja picadinho!

Esse tipo de tradição simbólica, perde-se no tempo; foram encontradas representações muito antigas, por exemplo, nos afrescos e mosaicos das ruínas de Pompeia. Contudo, como temática de um gênero de pintura em tela, que representa coisas ou seres inanimados, não é algo tão antigo quanto se poderia pensar; a representação pictórica, exclusiva, da chamada natureza morta, surgiu por volta dos anos 1500.

Anteriormente, os elementos inanimados já eram usados na composição de telas, onde os motivos centrais tinham outras finalidades de maior destaque. Muitas vezes, objetos ou animais, serviam apenas para preencher alguns detalhes temáticos, meros coadjuvantes na composição, sem maior importância contextual.

Arte influenciando na escolha de uma profissão

Há casos em que a pintura de naturezas mortas, de uma forma mais científica, serve para o estudo dos hábitos alimentares das pessoas, em determinadas épocas, classes sociais ou país. No caso de nosso pequeno personagem, serviu também para motivar na escolha de sua profissão.

Despertada a sua curiosidade, ainda criança, passou a procurar mais imagens e informações, contidas em obras de arte com representações de animais, as naturezas mortas. Na sua formação superior, escolheu a biologia. Animal e arte sempre estiveram ao lado daquela criança, até tornar-se adulta. Poderia, talvez, ter seguido outras profissões, igualmente ligadas aos animais, tais como medicina veterinária ou zoologia. Quem sabe até ser artista? Mas isso não vem ao caso!

Não existe um estudo completo sobre essa capacidade da arte influenciar as pessoas, ainda jovens, na opção de suas futuras profissões; talvez nem haja interesse nisso! Acredita-se que esse fenômeno possa ser verificado de outra maneira, mas há muitas outras situações envolvendo artes e profissões técnicas.

Houve um tempo quando arte e ciência andavam de mãos dadas, quando artistas plásticos buscavam estudar a anatomia humana e de outros animais, por meio da dissecação. Em razão de impedimentos legais, religiosos e até culturais, muitos artistas eram obrigados a, secretamente, roubar cadáveres, para poderem estudar anatomia, objetivando executar melhor os desenhos e pinturas. Entretanto, com animais abatidos nas caçadas, era possível fazer detalhados estudos de anatomia. Isso, algumas vezes, era realizado nos açougues ou mesmo nas cozinhas das casas. Assim, daquela época, muitas pinturas de natureza morta serviram igualmente para orientar estudos científicos.

Viajando e visitando museus, torna-se notável a presença de turmas de escolas, das mais diferentes faixas etárias, que, junto com seus professores, visitam aqueles fantásticos acervos. Certamente, além da finalidade didática, as aulas ministradas nos museus podem influenciar os jovens na formulação de opções, para futuros cursos técnicos ou superiores, nos quais irão, de forma mais consciente e prazerosa, buscar os caminhos alternativos de profissionalização.

Exemplos de animais em naturezas mortas

Nem sempre vamos ver animais e profissões representados de forma associada e única nas telas; muitas vezes aparecem consorciados com outros elementos inanimados, sem nítidas ligações temáticas.

Entretanto, alguns artistas tiveram a felicidade de construir cenários nos quais há total coerência entre os itens escolhidos. Despertam muito a atenção telas nas quais três situações são contempladas. Nas telas de Clara Peeters, há belos exemplos de frutos do mar; nas telas de Pieter Aertsen, pintor holandês, são apresentadas bancas de carne; e nos quadros de Paul de Vos, existem maravilhosas cenas de finais de caçadas.

Luiz Roberto da Rocha Maia
Artista Plástico
rochamaia@gmail.com

Academia Brasileira de Belas Artes.

Reproduzidas aqui matérias da coluna Arte Animal, publicada no site www.aninalbusiness.com.br, da SNA-Sociedade Nacional de Agricultura

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